sábado, 25 de agosto de 2012

0106 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV 2


SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (II)
 Paulo Roberto Ceccarelli*

O difícil e longo processo de “educação pulsional” que permite ao sujeito suportar as exigências impostas pela civilização inicia-se no nascimento. O potencial bio-psíquico do bebê será desenvolvido a partir de suas relações com seus cuidadores e, num segundo momento, pelo grupo mais amplo no qual está inserido: esse grupo é o primeiro representante sócio-cultural ao qual ela terá acesso e do qual extrairá as informações sobre o sistema simbólico da sociedade que pertence e à qual deverá se submeter e inserir seus comportamentos e condutas.
A criança precisa de modelos éticos de seu pais
A participação de seus cuidadores na construção do sistema de valores ético-morais da cultura em que está inserida é um postulado de base. Entretanto, quando seus responsáveis não lhe oferece referências identificatórias, é provável que ela busque modelos fora do ambiente próximo para sua constituição psíquica. Na falta de referências, a criança pode tomar aquilo que a mídia, em particular a TV, exibe como coordenadas de base.
Em 2000 publiquei um texto em que parto dessas considerações para discutir em que medida aquilo que a mídia veicula pode produzir efeitos perversos para a constituição psíquica.

* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

0106 [Perg/Res] Estou há 6 anos sem namorar, beijar, transar


Desde 2006 sem apetite sexual
Estou há aproxima-damente quatro anos sem sexo, sem namorar, beijar, ou qualquer contato físico. Não sinto vontade alguma de ter alguém ou outra forma de excitação. Sempre gostei de sexo, mas desde 2006 estou sem apetite sexual ou desejo de relacionamento amoroso. Estou preocupada, amigos me questionam sobre isso e não sei responder. Ser assexuado é uma doença? Existe tratamento?
Meire.

Seria importante primeiramente esclarecer que o termo ‘assexuada’ conceitua um tipo de reprodução de algumas espécies animais ou vegetais. O termo não define uma patologia ou sintomatologia.
Em sua queixa reporta-se ao termo ‘assexuado’ para definir a vida sem atividade sexual. É um equívoco, além de uma tentativa de apreensão do que lhe ocorre pelo desconhecimento das causas, buscando uma nomeação para isso.
A primeira coisa que se pode pensar é o que ocorreu em 2006 em sua vida? Saberia localizar algum fato que tenha desencadeado uma mudança em sua libido? Não me parece razoável pensar que em determinado dia, acordou e decidiu zerar sua atividade sexual. Muito provavelmente você foi lenta e gradativamente retraindo sua libido, até o ponto de fechamento em que se encontra. Isso lembra o que ocorre na depressão. Não é possível lhe afirmar o que seja, mas como até mesmo em sua pergunta o marco é o ano de 2006, seria sensato pensar o que houve na época.
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P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

0105 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV 1


SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (I)
 por Paulo Roberto Ceccarelli*

Toda civilização tem de se erigir sobre a coerção e renúncia à pulsão.
Freud, 1929. 

Freud sustenta que a civilização é a responsável direta pela infelicidade do indivíduo, na medida em que exige renúncias pulsionais severas. Ainda que alguns possam suportar os limites impostos à sexualidade sem adoecer (sublimando, por exemplo), outros incapazes de fazê-lo recorreriam a doenças ou transgressões como alternativas pulsionais de vazão à sexualidade. 
A sexualidade é formada também pela mídia
Em “O mal estar na civilização” (1930) Freud revê essa posição com a introdução da pulsão de morte. Sendo essa pulsão uma tendência inata, é um ingrediente irredutível do sofrimento psíquico. Assim, atribuir exclusivamente à civilização a responsabilidade pela doença nervosa seria muito simplista.
O alto preço dessa renúncia só é suportável por meio de satisfações substitutivas. Mais que isto: para que a transformação do gozo em desejo ocorra é necessário que o Outro garanta a continuidade de satisfações substitutivas. Caso contrário uma “permanente parcela de descontentamento persistirá dentro da cultura, o que pode conduzir a perigosas revoltas”. As satisfações substitutivas são parciais, deixando um Mal estar difícil de aplacar.

* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

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quarta-feira, 22 de agosto de 2012

0105 [Perg/Resp] Apaixonei-me por um homem casado da net


Nos encontramos
ele é casado
Adoeci e engordei muito. Conheci um cara casado na internet e começamos uma amizade. Após dois anos nos encontramos e em poucos encontros nos beijamos; logo estávamos na cama. Já nos conhecíamos muito (e-mail, MSN, fone), e principalmente me sentia desejada apesar de me sentir feia. Pela primeira vez fui admirada num relacionamento. Tentei me afastar dele, mas se estamos na mesma cidade fica impossível! Sinto-me protegida quando estou nos seus braços. Dói demais voltar para casa fingindo estar tudo bem, que eu não sinto tanto sua falta, que sou a mulher independente e desapegada que eu gostaria de ser. Estou muito errada?
Alba.

Viver uma vida de faz-de-conta não é das melhores coisas. Por mais que bons momentos sejam experimentados, uma hora a ficha cai, e relacionamentos virtuais são sempre muito carregados de idealização. Quando diz que já se conheciam muito se vale do tempo, mas os meios citados (e-mail, MSN e fone) que não introduzem a presença física, o olho no olho, reforçam idealizações. E idealizações potencializadas geram enormes paixões assim como enormes decepções. Como isso não aparece em seu relato, sou levado a crer na prevalência da paixão.
Sua auto-estima comprometida pela imagem corporal negativa ao lado de relacionamentos onde não fora valorizada contribui para depositar nele suas expectativas de um amor intenso. Mas você já se deu conta onde é que as coisas emperram. 
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0104 [Artigo] O Significado do Corpo (VII) Mídia 2


ÉTICA, MÍDIA E SEXUALIDADE (II)
por Paulo Roberto Ceccarelli*

Ainda que a sexualidade infantil esteja presente desde o nascimento, ela tem um tempo e um ritmo próprios, e a exposição prematura a um excesso de estímulos sexuais pode ser problemático para um sujeito em constituição. Uma das fontes deste excesso tem sido a mídia. Alguns programas incentivam o despertar da sexualidade de maneira preocupante para o futuro da criança. Exemplo: há algum tempo atrás, várias emissoras exibiam meninas de 3, 4 anos, às vezes menos, dançando a então famosa "dança da garrafa". É claro que isto traz uma grande satisfação para a criança e, sem dúvida para os pais, por estar sendo admirada e agradando ao público. Entretanto, o olhar do adulto em direção a esta cena, não é o mesmo que o da criança. Isto pode provocar uma erogenização precoce e produzir um tipo de apelo sexual em completa contradição com a sua condição infantil. A mídia tem que saber disto e se posicionar a respeito: é uma questão ética.

Os adolescentes tão pouco estão ao abrigo desses efeitos perversos da mídia. A busca de modelos externos – típica desta fase de separação dos modelos familiares – faz com que aqueles carentes de referências que suportem esta passagem tomem aos padrões e comportamentos sexuais que a mídia exibe como "regra de conduta". Muitas vezes, entretanto, o que a mídia exibe se encontra em total contradição com o sentimento que o adolescente experimenta, o que pode fazer com que ele se sinta desrespeitado, discriminado ou até perdido. Em outras situações ela oferece "soluções" a conflitos internos assegurando ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhe, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes geradoras de angústia.

A mídia tem uma responsabilidade ética com o que exibe, e não pode ignorar a sua participação na construção social, na formação de mentalidades e no desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente. Atrelar o que ela veicula exclusivamente aos pontos da audiência baseada na ideologia de uma cultura globalizante é desrespeitar a particularidade do tempo de maturação da constituição de cada sujeito.

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

0103 [Artigo] O Significado do Corpo (VI) Mídia 1


ÉTICA, MÍDIA E SEXUALIDADE (I)
Paulo Roberto Ceccarelli

A sexualidade sofre efeitos da mídia
A sexualidade humana se constitui antes do nascimento da criança e se relaciona com o lugar que a criança ocupa no imaginário dos pais e na economia libidinal do casal. Após o nascimento inicia-se a constituição do sujeito: um processo marcado por intensos movimentos pulsionais que definirão a expressão da sexualidade adulta. Isto significa que os diferentes graus de repressão, prazer, culpa, influenciam na maneira como cada um vive a sua própria sexualidade, construída desde os primeiros dias de vida.
Embora a criança demonstre interesse sexual desde tenra idade, a sexualidade infantil é totalmente diferente da adulta. A resposta que ela dá às excitações sexuais de seu corpo não corresponde à leitura que o adulto faz desta mesma sexualidade. É por esse motivo que a criança é inocente na fase das "brincadeiras sexuais". O adulto ao surpreendê-la nestas brincadeiras lhes atribui a conotação sexual adulta que significará a permissão/proibição de certas brincadeiras à criança e, em casos extremos, dignas da punição de Deus. A resposta do adulto à sexualidade infantil está intimamente ligada à maneira como o mesmo vivenciou o despertar de sua própria sexualidade.

(Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso).
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sábado, 5 de maio de 2012

0103 [Perg/Resp] Depois de dois anos descobri que ele tem outra


Depois de 2 anos descobri que ele tem outra
Começamos a ficar e em fevereiro de 2009 ele me pediu em namoro, mas achava cedo para me apresentar à família. Também sempre tinha uma desculpa para não viajarmos. Em novembro de 2009 me pediu um tempo. Mesmo muito mal decidi continuar ficando, mas dois anos depois descobri que ele namora outra se dizendo sem compromisso. Senti-me humilhada e ainda disse que prefere as mulheres brancas (sou negra). Pior é que gosto dele. Já os flagrei juntos e depois me ligou pra eu falar para ela que não temos nada, e assim sairmos mais.
Tânia.

A primeira pergunta que se impõe é: está disposta a aceitar essa situação? A julgar por seu relato não me parece, mas posso estar enganado. Essa situação instalou um conflito entre sua razão e emoção; esse me parece seu drama.
Pode ser que quando ele lhe pediu o tempo a namorada estivesse surgindo no pedaço – é uma suspeita – e houve maior investimento nela. Outra coisa a ser considerada é que os inícios de namoro sempre são mais curtidos a dois, além de estarem se conhecendo. Isso talvez explique por que ele não queria as famílias.
Mas tudo isso cai por terra se considerarmos que ele agiu de má fé com você, escondendo os fatos. O que se evidencia é a cegueira que o amor provoca. Por aproximadamente um ano não foi capaz de avaliar o desejo dele por você, talvez na idealização da situação, focando-se apenas no seu desejo. Ou estou enganado?
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P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br
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