quinta-feira, 6 de setembro de 2012

0109 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV (V)



SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (V)
Reality Shows
Por Paulo Roberto Ceccarelli*

A idéia de consumo vai além do mundo físico: novelas, reality shows, programas de rádio, revistas e jornais exibindo extrema felicidade ou desgraça intoxicam as pessoas. Produzem não só o prazer imediato, mas também criam um alto grau de independência do mundo externo:
Com esse ‘amortecedor de preocupações' [propósito da mídia] refugia-se da pressão da realidade para um mundo próprio.
O consumo ultrapassa os Reality Shows
O fantasiar, necessário ao equilíbrio psíquico pela compensação às "exigências da sociedade", transforma-se na única forma de satisfação pulsional ao alcance do sujeito. Quanto menos acesso às satisfações substitutivas reais, mais o mundo fantasmático se apresenta como alívio de tensões pulsionais. A pulsão não submetida à realidade (efeito tóxico que a ilusão produz) tem satisfação muito mais intensa que a submetida a ela. A intensidade da frustração acompanha a distância entre o que o sujeito é e o que a mídia decreta como única possibilidade de reconhecimento narcísico. Os comportamentos anti-sociais e suas vertentes são componentes agressivos gerados pela frustração. Para alguns é a única forma de se manter certo grau de "saúde" psíquica. 


* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

0109 [Perg/Resp] Optei por ser assexuada, não sei beijar



Sou desajeitada com os garotos

Optei por ser assexuada e nunca tive envolvimento algum com outra pessoa. Há alguns meses conheci um garoto pela internet. Sempre conversamos por MSN, Orkut ou torpedo. Ele pode vir passar uma semana na minha cidade e o medo e insegurança me assaltaram. Já namorou, teve ficantes, beijou e nem virgem é mais, e esse é meu desespero! Agora gostaria ser feliz ao lado de quem me faz tão bem, mas sou desajeitada com os garotos. Estou pensando em alguma estratégia para que desista da viagem. Temo frustrá-lo por não saber beijar.
Renata, 19.

Algumas edições atrás o termo assexuada ficou definido como forma de reprodução animal ou vegetal e não uma condição de vida humana. Você parece utilizá-lo para dizer de uma proposta de vida, ou seja, ausência de envolvimento amoroso ou físico de qualquer espécie. No entanto a situação colocada lhe deixa em conflito.
Nossos desejos, sempre inconscientes, quando surgem tomam conta das coisas e ficamos à sua mercê. Sua proposta parece se apoiar numa decisão racional, mas a situação que vive é sentimental. Por melhores que sejam, tais argumentos não aplacam a força do desejo que se impõe a você.
O enfrentamento da vida é a proposta da Psicanálise, e assumir o que deseja de fato é o x da questão. O problema é que as coisas viraram e agora se vê diante de uma novidade. Momento rico e de crescimento, mas é preciso saber como conduzi-lo.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

0108 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV 4



SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (IV)

Por Paulo Roberto Ceccarelli*

A mídia padroniza o desejo
Os modelos impostos pela mídia, verdadeiros ditames de conduta, substituem ou eliminam nossa singularidade (origens, cultura, crenças, valores ético-morais), levando a um empobrecimento radical da subjetividade. 

Modelos coletivos criam ilusões identitárias cuja manutenção só é possível pela eliminação da circulação do desejo: o sujeito é transformado em objeto de consumo, e os valores sociais de felicidade em necessidades narcísicas. Não se medem esforços pela audiência e garantia de patrocinadores. A organização imaginária onde a publicidade atua é patogênica, pois dá à imagem uma única interpretação possível.

Se a felicidade é um problema de economia libidinal, o que é exibido como insígnia de sucesso é uma satisfação substituta da renúncia pulsional. A mídia opera no psiquismo transformando qualquer objeto em objeto de necessidade impedindo-o de realizar o desejo, sua função. É entre a satisfação pulsional e narcisismo que as campanhas publicitárias vigoram. Baseiam-se no ‘possuindo (consumindo), você "chega lá"’. Sua perversão se revela numa promessa de completude. Maria Rita Kehl merece reflexão: “a mídia pode romper o pacto civilizatório na medida em que sugere que não há limite?”.


* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

0108 [Perg/Resp] Por causa do ciúme dela não saio mais


Se olho para as pessoas
ela muda o humor
Namoro há quatro anos, estou noivo e ela tem 20 anos. Quando saíamos comer fora era só eu olhar em volta se tinha alguém conhecido e ela já ficava com ciúme (gosto de ficar de frente para a entrada). Mas se sentasse de costas e virasse de vez em quando pra trás, nooossa! Não saio mais, evito locais públicos, se for comer vou ao drive thru. Se eu olhar para uma mulher sem cobiçá-la ela já altera o humor. Nooossa, terrível! Vai dar certo?
Célio, 30.

O ciúme é um componente das relações que surge quando há uma terceira pessoa, mesmo imaginariamente. O simples fato de ela imaginar isso a sinaliza algum perigo em curso. Em relações de cumplicidade e lealdade entre ambos, se confirmada a suspeita, o sentimento encontra fundamento para existir, mas não parece ser o caso.
Veja que no prazo de quatro anos houve uma retração de sua espontaneidade, buscando minimizar o mal estar que situações públicas causaram. No entanto o ciúme é sempre intrínseco a quem o vive. E acredite, a pessoa que o sente é a que mais sofre, não poupando as demais.
Mas sua questão foca-se no sucesso ou fracasso dessa relação. Por quatro anos já provou do bom e do ruim dela. Pois apesar do ciúme outros sentimentos atuam, como o amor, o respeito, etc. Não existem príncipes ou princesas, e as pessoas vêm com o kit completo. Até que ponto está disposto a pagar seu preço?

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

domingo, 26 de agosto de 2012

0107 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV 3


SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (III)
Por Paulo Roberto Ceccarelli*

Entendo por efeitos perversos a situação onde os meios de comunicação utilizam seu poder de persuasão, baseado na mais alta tecnologia, para criar comportamentos e difundir valores sociais de felicidade que transformam objetos, os mais triviais, em necessidades. Entretanto, o que está sendo, de fato, oferecido, e que rapidamente se transforma em “sonho de consumo”, são padrões identificatórios globalizantes apresentados como insígnias (imaginárias) de sucesso. Esses padrões, dificilmente alcançáveis pela grande maioria da população, transformam as identificações em valor de consumo e propiciam a criação de duas “realidades sociais”: a dos que tem acesso aos objetos, e a dos que não tem. Se você não tem dê um jeito de ter, senão estará excluído do imaginário social que dita, em estreita ressonância com as leis de mercado, como se deve ser, agir, o que comprar... “A mídia” observa Eugênio Bucci “é o maior veículo de exclusão social”. Deduz-se facilmente a tensão que esta organização social acarreta, pois as relações humanas “são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação (pulsional) que a riqueza existente torna possível”. Quando isto não acontece, a civilização não cumpre o papel de tornar a vida comunitária possível e “efetuar certa distribuição da riqueza (e) mantê-la”.
As identificações determinam, também, o tipo de relação que o sujeito estabelece com o mundo. A observação de Le Bon, citada por Freud, sobre como funcionam os grupos, é ilustrativa:
A TV busca padronizar comportamentos
“Um grupo é extremamente crédulo e aberto à influência; não possui faculdade crítica e o improvável não existe para ele. Pensa por imagens, que se chamam umas às outras por associação (tal como surgem nos indivíduos em estados de imaginação livre), e cuja concordância com a realidade jamais é conferida por qualquer órgão razoável.”
Embora o uso da palavra imagens no texto citado seja diferente do uso atual da palavra, é exatamente este o efeito que a imagem exibida na TV produz: uma captura imaginaria, no sentido do Estádio de Espelho, que prescinde de qualquer índice de realidade. Isto só é possível porque a “as relações amorosas (laços emocionais) constituem também a essência da mente grupal”. Ou seja, são nas identificações que as imagens se sustentam quando produzem laços emocionais. Além disso, como na hipnose e na formação de grupos, encontramos também a idealização e o fascínio pelo líder cujo lugar, aqui, é ocupado pela imagem. No entanto, é a relação narcísica que, neste caso, participa na estruturação dos laços que unem o sujeito. Ora, sabemos que o rompimento de laços baseados no narcisismo, que denuncia o funcionamento imaginário desta forma de interação humana, é uma dos maiores geradores de violência social.

* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br
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