sábado, 8 de setembro de 2012

0111 [Perg/Resp] A fila andou pra minha ex-



Fiquei com a ex de um amigo
Após três anos eu e minha ex resolvemos romper, já não rolava mais legal. Um mês depois saímos com amigos em comum para uma casa noturna. Parecia um recomeço tranqüilo quando vi que ela já estava em outra, com um amigo da faculdade. Comecei a conversar com a ex dele (que terminaram na mesma época) e fui me interessando, gostando dela de verdade. Receio que ela pense que eu queira usá-la para me vingar. Como faço para que saiba que estou gostando mesmo dela?
André.

Sua questão parece simples: ser autêntico, agir com espontaneidade e deixar que ela mesma tire suas conclusões. Não há como fazermos alguém pensar algo de nós, as pessoas formam seus próprios conceitos, independente de nossa vontade.
Chamou-me a atenção você ter iniciado o relato com uma expectativa com sua ex, e as coisas rapidamente se voltarem para a ex do atual ‘namorado’ dela. Fica evidenciado, de certa forma, que seus afetos soltos, sem estarem fixados num objeto, encontram na ex do outro seu alvo. Todo relacionamento se inicia com certo grau de carência ou idealização e esse grau determina sobremaneira nossas projeções na pessoa amada. Isso pode se tornar um problema assim que o real se impõe.
Outro dado curioso é a “troca de casais” estabelecida na trama. Enquanto suas preocupações estiverem, de alguma forma, vinculadas à sua ex, menos a vontade se sentirá com a nova pessoa que surge em sua vida.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

0110 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV (VI)



SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (VI)
Cultura e Tabu
 Por Paulo Roberto Ceccarelli*

A revolução sexual dos anos 60 quebrou tabus
Com a “revolução sexual” dos anos 60 surgiu grande liberdade para se falar sobre sexualidade; houve maior transparência das práticas sexuais (o adolescente leva o/a companheiro/a para passar a noite em casa); casar-se sem ser virgem, ficar grávida sem se casar não causam mais escândalo; relacionamentos homossexuais são assumidos, etc. Pais passam a responder perguntas dos filhos honestamente. Tais assuntos não são mais tabus.
Porém, o contato com o sexual não se tornou mais simples. Com a “desrepressão” não houve um desrecalcamento da sexualidade. Essas duas variantes (repressão e recalcamento sexual) afetam regiões psíquicas diferentes, facilmente tratadas como de mesma ordem.
O sistema de valores sustenta o imaginário social e faz emergir a moral vigente. Esse imaginário constrói-se a partir de um mito de origem da cultura, portanto sócio-histórico. O sistema de valores da cultura ocidental origina-se no imaginário judaico-cristão, onde o discurso ideológico com noções de normalidade e patologia, supostamente naturais e imutáveis, se cria. A Moral sexual civilizada impõe uma sexualidade normativa a todos, ponto em que incidiu a revolução sexual.


* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

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quinta-feira, 6 de setembro de 2012

0110 [Perg/Resp] Ele acabou com 12a de casamento


Estou destruída, vendo meu casamento de quase 12 anos ruir. A única coisa que mais tinha certeza nessa vida era o amor do meu marido. Agora ele me disse que acabou e vai embora. Estou sem chão, aos pedaços. Nunca pensei em passar por algo assim na minha vida. Estou desesperada.
Nair, Mogi das Cruzes. 

Eu tinha certeza do amor dele!
Seria mais prudente afirmar que ‘a única coisa que mais tem certeza nessa vida (se é que ainda tem) é o seu amor por ele’. Não temos como afirmar qualquer coisa sobre o sentimento de outro, por mais evidente que ele possa nos parecer. Nosso coração pode de uma hora para outra nos surpreender com as mudanças da vida.
Em 12 anos de casamento muitos sonhos são enterrados, expectativas frustradas. A acomodação vai tomando conta, sem que isso seja claramente notado. O dia-a-dia pode cair na mesmice, na rotina e o amor outrora lindo e fantasioso fica submetido à realidade que se impõem.
Você já conversou com ele sobre seus sentimentos? Perguntou os porquês dessa decisão abrupta dele (que é como a apresenta)? O diálogo é fundamental. Com que freqüência vocês conversam sobre os problemas rotineiros? Discutem a relação? Reflita se isso tem sido raro ou freqüente. Em geral uma relação que se direciona para o fim cessa o diálogo. Outros elementos podem estar em jogo, mas não tenho como ponderá-los.
De qualquer forma, seu desespero deve ser uma responsabilidade exclusivamente sua.

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0109 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV (V)



SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (V)
Reality Shows
Por Paulo Roberto Ceccarelli*

A idéia de consumo vai além do mundo físico: novelas, reality shows, programas de rádio, revistas e jornais exibindo extrema felicidade ou desgraça intoxicam as pessoas. Produzem não só o prazer imediato, mas também criam um alto grau de independência do mundo externo:
Com esse ‘amortecedor de preocupações' [propósito da mídia] refugia-se da pressão da realidade para um mundo próprio.
O consumo ultrapassa os Reality Shows
O fantasiar, necessário ao equilíbrio psíquico pela compensação às "exigências da sociedade", transforma-se na única forma de satisfação pulsional ao alcance do sujeito. Quanto menos acesso às satisfações substitutivas reais, mais o mundo fantasmático se apresenta como alívio de tensões pulsionais. A pulsão não submetida à realidade (efeito tóxico que a ilusão produz) tem satisfação muito mais intensa que a submetida a ela. A intensidade da frustração acompanha a distância entre o que o sujeito é e o que a mídia decreta como única possibilidade de reconhecimento narcísico. Os comportamentos anti-sociais e suas vertentes são componentes agressivos gerados pela frustração. Para alguns é a única forma de se manter certo grau de "saúde" psíquica. 


* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

0109 [Perg/Resp] Optei por ser assexuada, não sei beijar



Sou desajeitada com os garotos

Optei por ser assexuada e nunca tive envolvimento algum com outra pessoa. Há alguns meses conheci um garoto pela internet. Sempre conversamos por MSN, Orkut ou torpedo. Ele pode vir passar uma semana na minha cidade e o medo e insegurança me assaltaram. Já namorou, teve ficantes, beijou e nem virgem é mais, e esse é meu desespero! Agora gostaria ser feliz ao lado de quem me faz tão bem, mas sou desajeitada com os garotos. Estou pensando em alguma estratégia para que desista da viagem. Temo frustrá-lo por não saber beijar.
Renata, 19.

Algumas edições atrás o termo assexuada ficou definido como forma de reprodução animal ou vegetal e não uma condição de vida humana. Você parece utilizá-lo para dizer de uma proposta de vida, ou seja, ausência de envolvimento amoroso ou físico de qualquer espécie. No entanto a situação colocada lhe deixa em conflito.
Nossos desejos, sempre inconscientes, quando surgem tomam conta das coisas e ficamos à sua mercê. Sua proposta parece se apoiar numa decisão racional, mas a situação que vive é sentimental. Por melhores que sejam, tais argumentos não aplacam a força do desejo que se impõe a você.
O enfrentamento da vida é a proposta da Psicanálise, e assumir o que deseja de fato é o x da questão. O problema é que as coisas viraram e agora se vê diante de uma novidade. Momento rico e de crescimento, mas é preciso saber como conduzi-lo.

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0108 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV 4



SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (IV)

Por Paulo Roberto Ceccarelli*

A mídia padroniza o desejo
Os modelos impostos pela mídia, verdadeiros ditames de conduta, substituem ou eliminam nossa singularidade (origens, cultura, crenças, valores ético-morais), levando a um empobrecimento radical da subjetividade. 

Modelos coletivos criam ilusões identitárias cuja manutenção só é possível pela eliminação da circulação do desejo: o sujeito é transformado em objeto de consumo, e os valores sociais de felicidade em necessidades narcísicas. Não se medem esforços pela audiência e garantia de patrocinadores. A organização imaginária onde a publicidade atua é patogênica, pois dá à imagem uma única interpretação possível.

Se a felicidade é um problema de economia libidinal, o que é exibido como insígnia de sucesso é uma satisfação substituta da renúncia pulsional. A mídia opera no psiquismo transformando qualquer objeto em objeto de necessidade impedindo-o de realizar o desejo, sua função. É entre a satisfação pulsional e narcisismo que as campanhas publicitárias vigoram. Baseiam-se no ‘possuindo (consumindo), você "chega lá"’. Sua perversão se revela numa promessa de completude. Maria Rita Kehl merece reflexão: “a mídia pode romper o pacto civilizatório na medida em que sugere que não há limite?”.


* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

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