domingo, 26 de agosto de 2012

0107 [Artigo] Sexualidade e Consumo na TV 3


SEXUALIDADE E CONSUMO NA TV (III)
Por Paulo Roberto Ceccarelli*

Entendo por efeitos perversos a situação onde os meios de comunicação utilizam seu poder de persuasão, baseado na mais alta tecnologia, para criar comportamentos e difundir valores sociais de felicidade que transformam objetos, os mais triviais, em necessidades. Entretanto, o que está sendo, de fato, oferecido, e que rapidamente se transforma em “sonho de consumo”, são padrões identificatórios globalizantes apresentados como insígnias (imaginárias) de sucesso. Esses padrões, dificilmente alcançáveis pela grande maioria da população, transformam as identificações em valor de consumo e propiciam a criação de duas “realidades sociais”: a dos que tem acesso aos objetos, e a dos que não tem. Se você não tem dê um jeito de ter, senão estará excluído do imaginário social que dita, em estreita ressonância com as leis de mercado, como se deve ser, agir, o que comprar... “A mídia” observa Eugênio Bucci “é o maior veículo de exclusão social”. Deduz-se facilmente a tensão que esta organização social acarreta, pois as relações humanas “são profundamente influenciadas pela quantidade de satisfação (pulsional) que a riqueza existente torna possível”. Quando isto não acontece, a civilização não cumpre o papel de tornar a vida comunitária possível e “efetuar certa distribuição da riqueza (e) mantê-la”.
As identificações determinam, também, o tipo de relação que o sujeito estabelece com o mundo. A observação de Le Bon, citada por Freud, sobre como funcionam os grupos, é ilustrativa:
A TV busca padronizar comportamentos
“Um grupo é extremamente crédulo e aberto à influência; não possui faculdade crítica e o improvável não existe para ele. Pensa por imagens, que se chamam umas às outras por associação (tal como surgem nos indivíduos em estados de imaginação livre), e cuja concordância com a realidade jamais é conferida por qualquer órgão razoável.”
Embora o uso da palavra imagens no texto citado seja diferente do uso atual da palavra, é exatamente este o efeito que a imagem exibida na TV produz: uma captura imaginaria, no sentido do Estádio de Espelho, que prescinde de qualquer índice de realidade. Isto só é possível porque a “as relações amorosas (laços emocionais) constituem também a essência da mente grupal”. Ou seja, são nas identificações que as imagens se sustentam quando produzem laços emocionais. Além disso, como na hipnose e na formação de grupos, encontramos também a idealização e o fascínio pelo líder cujo lugar, aqui, é ocupado pela imagem. No entanto, é a relação narcísica que, neste caso, participa na estruturação dos laços que unem o sujeito. Ora, sabemos que o rompimento de laços baseados no narcisismo, que denuncia o funcionamento imaginário desta forma de interação humana, é uma dos maiores geradores de violência social.

* Paulo Roberto Ceccarelli é Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII, entre outros títulos de peso.

P a r a   e n v i a r   p e r g u n t a s : gobett@tribunatp.com.br

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