quarta-feira, 22 de agosto de 2012

0104 [Artigo] O Significado do Corpo (VII) Mídia 2


ÉTICA, MÍDIA E SEXUALIDADE (II)
por Paulo Roberto Ceccarelli*

Ainda que a sexualidade infantil esteja presente desde o nascimento, ela tem um tempo e um ritmo próprios, e a exposição prematura a um excesso de estímulos sexuais pode ser problemático para um sujeito em constituição. Uma das fontes deste excesso tem sido a mídia. Alguns programas incentivam o despertar da sexualidade de maneira preocupante para o futuro da criança. Exemplo: há algum tempo atrás, várias emissoras exibiam meninas de 3, 4 anos, às vezes menos, dançando a então famosa "dança da garrafa". É claro que isto traz uma grande satisfação para a criança e, sem dúvida para os pais, por estar sendo admirada e agradando ao público. Entretanto, o olhar do adulto em direção a esta cena, não é o mesmo que o da criança. Isto pode provocar uma erogenização precoce e produzir um tipo de apelo sexual em completa contradição com a sua condição infantil. A mídia tem que saber disto e se posicionar a respeito: é uma questão ética.

Os adolescentes tão pouco estão ao abrigo desses efeitos perversos da mídia. A busca de modelos externos – típica desta fase de separação dos modelos familiares – faz com que aqueles carentes de referências que suportem esta passagem tomem aos padrões e comportamentos sexuais que a mídia exibe como "regra de conduta". Muitas vezes, entretanto, o que a mídia exibe se encontra em total contradição com o sentimento que o adolescente experimenta, o que pode fazer com que ele se sinta desrespeitado, discriminado ou até perdido. Em outras situações ela oferece "soluções" a conflitos internos assegurando ao sujeito a ilusão de pertencer a um grupo e propiciando-lhe, ao mesmo tempo, uma defesa contra o perigo de se entrar em contato com representações inconscientes geradoras de angústia.

A mídia tem uma responsabilidade ética com o que exibe, e não pode ignorar a sua participação na construção social, na formação de mentalidades e no desenvolvimento psicossocial da criança e do adolescente. Atrelar o que ela veicula exclusivamente aos pontos da audiência baseada na ideologia de uma cultura globalizante é desrespeitar a particularidade do tempo de maturação da constituição de cada sujeito.


* Psicólogo; psicanalista; Doutor em Psicopatologia Fundamental e Psicanálise pela Universidade de Paris VII; Membro da Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental; Membro da "Société de Psychanalyse Freudienne", Paris, França; Consultor científico (Editorial Reader) do "International Forum of Psychoanalysis"; Membro do Conselho Científico da Revista Psychê; Membro do Conselho Científico da Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental; Membro Fundador da ONG TVer; Vice-presidente do TVer-MG; Professor no Departamento de Psicologia da PUC-MG; Conselheiro Efetivo do X Plenário do Conselho Regional de Psicologia da Quarta Região (CRP/O4).

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